Andar pelo Brasil – Parte 1

Quero te contar hoje um pouquinho da minha história. Uma jornada por em diferentes cidades do país. Mal sabia eu, que em 1996, quando entrei na faculdade de Odontologia da Universidade Federal eu estava ali mudando completamente o roteiro de toda minha vida. Abandonei a faculdade de Ciência da Computação que cursava desde 1994 e me demiti de um emprego em banco privado, onde estava desde 1989, quando ingressei aos 15 anos de idade como menor aprendiz. Foi uma mudança completa de direção. Abandonar um bom emprego e uma boa faculdade, a qual já havia realizado metade do curso foi uma decisão, posso dizer, dramática. O emprego me ajudava a me manter e ajudar um pouco na casa de meus pais. Entrar em faculdade da área de saúde em período integral iria mudar completamente o meu tipo e estilo de vida. E assim foi.

Quatro anos de muitas provações se passaram, me formei e com poucos dias de formado decidi enfrentar um outro desafio. Iria pela primeira vez na vida, morar fora de Fortaleza. Estava completamente decidido a iniciar minha carreira no interior do estado. Só não sabia qual seria a cidade. Entreguei pessoalmente em diversas prefeituras meu currículo e, para minha surpresa, nenhuma me chamou. No meu tempo, se iniciava a carreira trabalhando em alguma prefeitura como dentista de posto de saúde. Foram mais de 10 cidades que visitei e recebi apenas promessas. Como é de praxe quando se fala com gente de política, você nunca recebe um não. E pode acreditar, isso me deixou bastante preocupado. Precisava voltar a trabalhar. Após 4 anos apenas estudando, eu precisava começar logo, imediatamente. Foi então, que recebi a notícia de um tio. Ele conseguira uma vaga de emprego para mim na prefeitura da cidade que meus pais nasceram, Russas. Fica no sertão do vale do Rio Jaguaribe no estado do Ceará. E esse foi o primeiro capítulo dessa jornada.

Vamos falar sobre Russas, então. Eu era um jovem dentista recém-formado. Cheguei para trabalhar na prefeitura que pagava o pior salário de todo estado. Na época, julho de 2000. Meu salário era 634,00 por 20 horas semanais. Isso mesmo. Como não tinha dinheiro dos meus pais para me ajudar no início da profissão, não tinha como montar consultório, comprar carro, alugar apartamento. Morei no primeiro ano na casa de um primo. Era essa a opção. E encarei muito feliz. Para melhorar a renda, atendia em uma fábrica de calçados, por meio de uma empresa terceirizada que me pagava 5,00 por procedimento na época. Passei 6 meses economizando tudo que eu podia. Andava pela cidade de moto-táxi. Todo de branco, com uma maleta preta ia e voltava do trabalho na garupa de uma moto. Nessa época, dentista ainda usava branco.

Gostava da cidade. Apesar de todo fim de semana viajar para casa de meus pais em Fortaleza.
Bem no início de 2001, criei coragem, juntei o pouco de dinheiro que tinha e encarei um empréstimo do Banco do Brasil para montar meu consultório particular. A partir dali, seria só uma questão de tempo sair da prefeitura. Eu vivia dois mundos totalmente diferentes. Meu consultório, onde tudo funcionava bem, equipamentos novos, produtos de boa qualidade. No posto da prefeitura, deixa pra lá. A partir dali, vi que aquele seria meu primeiro e último emprego público. Gestor, deve haver honrosas exceções, não está preocupado em prover qualidade para a população ou para seus servidores. Aquele jogo de faz de conta não era para mim.

Comecei como qualquer jovem idealista e perfeccionista inicia. Trabalhando muito e com toda qualidade que eu poderia entregar, que na época era, convenhamos, mínima. Nada de implantes, lentes de contato, facetas, coroas de porcelana. Fazia basicamente clínica geral, o que incluía restaurações, limpeza de dentes, próteses móveis e pequenas cirurgias, principalmente extrações. Mas o consultório foi um sucesso imediato. Minha agenda já na segunda semana estava completamente lotada. E assim permaneceu durante toda minha vida profissional na cidade. Nesse mesmo ano, me casei e no ano seguinte nasceu minha primeira filha, Ana Beatriz. A única cearense de nossos 3 filhos.

Foi nesse tempo que vi o quanto era importante investir em bons materiais, bons equipamentos e muita educação continuada. Me especializei em endodontia (tratamento de canal) e em seguida tive meu primeiro contato com a área que abraçaria para o resto da vida. Odontologia Estética e Implantes dentários. Mas aí, também já estava decidido. Em 2005 iria prestar prova o Mestrado na USP. Esse era meu grande sonho. Passei o ano de 2005 inteiro estudando várias horas por dia. Conciliava, família, consultório, emprego e os estudos à noite. E acredite ou não, aquele dentista lá do interior do Ceará, conseguiu passar na prova de um dos mestrados mais concorridos e difíceis do Brasil. Em janeiro de 2006, encerrei minhas atividades no consultório, vendi minha carteira de clientes, me demiti da prefeitura onde era concursado desde 2003 e parti para a segunda parte dessa saga. Eu, Kylvia e Aninha. Ribeirão Preto era nosso destino. E fomos todos viver essa nova aventura. Mas isso é para o próximo post.

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