Andar pelo Brasil – Parte 4
Olha só. Em 2010, minha esposa Kylvia estava totalmente adaptada a Ribeirão Preto. Ela amava a cidade, amava o Hospital Universitário da USP, onde já era contratada como médica assistente na área de neurologia pediátrica. Nesse tempo, nós já tínhamos até comprado apartamento próprio na cidade. Nossos dois filhos estavam muito bem adaptados. Tínhamos como opção mais cômoda fixar residência em Ribeirão Preto. A Kylvia, após terminar a residência, entrou no mestrado e planejava em 2010 entrar no Doutorado. Eu era o grande entrave para a execução de todo esse planejamento. Você lembra da história da ponte que eu estava construindo para regressar a Fortaleza. Passei 4 anos preparando terreno para essa volta. Se nós tivéssemos, naquela época, tomado essa decisão, eu teria encerrado minhas atividades em Fortaleza. Não queria mais uma vida de viagens, aeroporto e longas conexões. Mal sabia eu, que ainda estava muito longe de encerrar esse ciclo.
Claro que me preocupava muito com ela, queria que a Kylvia também contemplasse seus sonhos. Mas existia aí um claro conflito de interesses, eu queria ir embora de Ribeirão Preto, ela queria se fixar e morar lá.
Bem, se voltarmos um pouco no tempo, chegaremos ao começo de 2009. Na época, a Kylvia prestou um concurso para médica neurologista na rede de Hospitais Sarah Kubistchek. Ela ficou em segundo lugar. Passados quase dois anos, no final de 2010, foi chamada a assumir essa vaga na unidade de Brasília. Imagina o entrave, ela queria ficar em Ribeirão Preto, eu queria voltar para Fortaleza. E agora aparecia uma excelente oportunidade de trabalho em Brasília para trabalhar em um dos melhores hospitais do país. Foi a opção intermediária, os dois tiveram que abrir de suas vontades inicias e agarramos a terceira alternativa.
Pois em janeiro de 2011, nos mudamos os quatro para Brasília. Mas aí se configurava um outro problema. Eu não conhecia nada nem ninguém lá. Ia ter que começar absolutamente do zero de novo. Montar consultório era o primeiro passo. Mas os pacientes viriam de onde? Nessa época, eu já estava decidido a não assumir nenhum tipo de emprego público. Eu trabalhei no começo em uma clínica de altíssimo nível no lago sul e também em numa instituição chamada Casa do Ceará. Essa instituição tinha uma clínica privada popular que prestava serviços à população. Eram dois mundos completamente diferentes. Como todo bom cearense, me adaptei. Mas eu não tinha me jogado num processo de 5 anos de preparação intensiva no Mestrado e no Doutorado da USP para trabalhar para os outros. Eu queria e precisava montar minha clínica, mesmo com todas as dificuldades que iria enfrentar para iniciar esse processo.
E não demorou muito. Em maio aluguei uma sala comercial na asa sul, mais precisamente setor hospitalar local sul (SHLS 716). E iniciei meu consultório particular com muita dificuldade e absolutamente nenhum paciente. Em agosto prestei concurso para professor da Universidade Católica de Brasília e fui aprovado. Me desliguei da clínica classe A do lago sul e da clínica popular da Casa do Ceará. Comecei, então, a fazer algo mais próximo daquilo que eu gostava. Ter meu próprio consultório e lecionar em uma Universidade. Lecionar é maravilhoso, desde o meu segundo ano de mestrado me tornei professor. Mas sempre fui professor de cursos de pós-graduação. Entrar como professor de graduação era um desafio que trazia duas grandes dificuldades, salário muito baixo e dedicação de muitas horas semanais. O prazer de ensinar em uma Universidade é algo maravilhoso. Poder ajudar o jovem no início de sua jornada traz muita satisfação pessoal. Mas o consultório acabava ficando em segundo plano e a conta financeira não fechava. Estava enredado em um círculo vicioso. Ganhava pouco na faculdade e pouco no consultório.
Eu não tinha como fazer algo que eu sempre amei na vida clínica, criar relacionamento com meus pacientes. Era impossível, eu não tinha tempo para isso. Estava com 80% do meu tempo preenchido com a Universidade. Eu estava trabalhando para o sonho do dono da instituição e não para o meu sonho. Além disso, tive que acabar com o consultório de Fortaleza. Lembra que eu ia todo mês a Fortaleza para ministrar meus cursos e atender meus pacientes, já tinha uma bela clientela fiel, fazendo implantes, reabilitação oral, odontologia estética, as coroas, facetas de porcelana e também já nessa época as lentes de contato dental. Foram mais de 5 anos fazendo isso. De 2006 a 2011. Pois quando entrei na Universidade, eu não podia mais passar uma semana ausente de Brasília. Tive que tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida, encerrar minhas atividades em Fortaleza e explodir aquela ponte que eu construí durante tanto anos.
Veio 2012, a Kylvia engravidou do terceiro filho no início do ano. Quando chegou essa notícia, tomei silenciosamente uma decisão que ainda iria demorar algum tempo para comunicar para a minha esposa, mas iria mudar mais uma vez radicalmente o rumo de nossas vidas. Mas isso vai ficar para o próximo post.
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