Como um dentista começa a exercer sua profissão – Parte II
Outra opção muito comum, principalmente para aqueles que não querem sair da capital para o interior é enfrentar as clínicas populares e as clínicas de plano de saúde. Graças a Deus, nunca precisei me submeter a isso. Mas a experiência de quem participou é das mais terríveis. Existem histórias de materiais reutilizados, esterilização deficiente, agenda super lotada, falta de tempo hábil para fazer um trabalho de qualidade, e muitas outras coisas. A clínica popular é uma aberração que só existe no Brasil e surgiu no vácuo do péssimo serviço prestado pelo governo. Que paciente pode esperar meses para tratar um canal? Fazer implantes, lentes de contato, facetas e coroas de porcelana no serviço público, nem pensar. Isso realmente não existe. Esse vácuo deixado pelo governo, faz surgir essas tais clínicas populares que realizam procedimentos a preços muito baixos, buscando atingir uma vasta quantidade de pessoas e ganhar em escala.
Mas preços muito baixos significam em 100% das situações, um trabalho de péssima qualidade. A grande massa trabalhadora que toca esses serviços são os dentistas recém-formados. A crueldade aqui chega a ser ainda maior que trabalhar no serviço público. Vamos entender a matemática. O dentista não ganha salário fixo. Ele tem uma comissão por procedimento realizado. O valor do procedimento é muito baixo e ele vai ganhar algum percentual em cima desse valor. Como qualquer ser humano normal, ele quer ganhar mais. É justo, é correto. Mas para isso tem que fazer o maior número de procedimentos que conseguir no menor tempo possível. É claro e evidente que a qualidade será negligenciada. Onde eu vejo a crueldade aí. O profissional sai da faculdade onde passa 4 horas para fazer uma simples restauração de resina. Onde tudo é perfeito, o procedimento é preciso, o controle é rigorosíssimo e feito sob orientação de professores de altíssimo nível. Quando sai, se depara com a realidade do mercado onde é submetido a fazer qualquer coisa de qualquer jeito desde que seja rápido e barato. Muitas vezes vai adquirir vícios terríveis que pode levar para a vida toda. Mas para o recém-formado que deseja ficar na capital, é isso ou isso.
O mercado para as classes A e B, que não consome Odontologia em clínica popular, já está dominado por dentistas consagrados e experientes, verdadeiros tubarões que não deixam oportunidade para os mais novos. O profissional recém-formado se vê num verdadeiro beco sem saída. Colocar um consultório para as classes mais abastadas e ficar às moscas nos primeiros anos ou encarar as clínicas populares para ganhar um pouco de experiência enquanto monta seu próprio consultório e começa a construir a sua história. Não consigo sinceramente acreditar que uma rede clínicas pode iniciar um trabalho sério na área de saúde tendo como único diferencial competitivo o preço muito baixo. Felizmente existem exceções e algumas clínicas maiores que atendem as classes C e D primam por um trabalho de qualidade e decência, mas para isso precisam cobrar um valor mais justo e assim poder atribuir ao profissional uma remuneração mais adequada. Ocorre que essas clínicas só aceitam especialistas. E o nosso amigo dentista recém-formado também não consegue se inserir nesse mercado.
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