Como é que um dentista inicia na sua profissão – Parte IV

Estava desafiado a começar minha carreira como dentista e nada me faria desistir ou esmorecer. Sai de ônibus algumas vezes, de carro emprestado outras em busca de alguma prefeitura que pudesse me contratar. Era assim mesmo. Estava pedindo emprego. E passei uma semana inteira nessa peregrinação. Como ficar em Fortaleza era carta fora do baralho para mim, escolhi que queria ir para uma cidade do interior, independente de qual fosse. Minhas visitas às prefeituras não estavam rendendo nenhum fruto. Alguns amigos já estavam começando a trabalhar, muitos por indicação. O networking estava funcionando para eles, mas eu não tinha networking. Então, não me restava outra coisa, senão pedir para pessoas completamente desconhecidas uma oportunidade de emprego.

Mas aí aconteceu o inusitado. Meus pais são naturais de Russas, interior do Ceará. Apesar de ter familiares morando lá até hoje, não passou pela minha cabeça perguntar para elas se eu conseguiria alguma coisa por lá. Não passou pela minha, mas passou pela cabeça do meu pai. Então, sem me falar nada, ele ligou para um primo dele, Antônio, conhecido como Tonho. Tonho é um homem descente, íntegro. Ele tem uma propriedade em um distrito de Russas chamado Santo Antônio. E aquilo que eu jamais imaginaria é que ele era amigo do prefeito da cidade à época. Adivinha o nome do prefeito. Antônio Weber. Haja Antônio. Pois o prefeito por consideração a meu tio me contratou na prefeitura de Russas e eu fui trabalhar no programa de saúde da família. Uma felicidade enorme. Estava indo para uma cidade no sertão jaguaribano de porte médio, a época com uns 60.000 habitantes. Uma cidade de comércio forte e que ficava a 160 km de Fortaleza. Distância excelente. Nem longe demais, nem perto demais. Pois foi dessa forma que comecei a dar meus primeiros passos com dentista no dia 26 de julho de 2000, uma quarta-feira.

No primeiro dia como dentista da prefeitura, descobri já naquele instante que serviço público não era para mim. Meu primeiro atendimento foi numa escola rural. Não havia sequer uma cadeira odontológica. Dá pra acreditar nisso? Fomos eu, o motorista Beto e a atendente Regina com uma caixa de instrumentais para extração de dente e muito boa vontade. Passei a tarde toda extraindo dente. Nisso eu já era muito bom pelos muitos estágios que eu havia feito durante minha faculdade. Acho que atendi umas 20 pessoas numa situação esdrúxula, elas sentadas num banco escolar e eu de pé. Nem passava pela minha cabeça reclamar de nada. Era ano político e todas as comunidades precisavam ser assistidas, nem que fosse nessa situação. As condições de atendimento eram deprimentes. Pouco tempo depois, parei de zanzar de distrito em distrito e fui acomodado em um posto de saúde com cadeira odontológica, um verdadeiro luxo. Era meio período, o resto do tempo ficava estudando. Mas em janeiro de 2001, consegui um empréstimo no Banco do Brasil e pude realizar o grande sonho que eu tinha. Montar um consultório particular próprio. A partir dali, trabalhava na prefeitura pela manhã e no consultório tarde e noite. E assim fui crescendo. A clientela aumentou muito rapidamente. Vi que precisava me aprimorar e comecei a fazer em Fortaleza especialização e depois vários cursos de aperfeiçoamento na área de implantes e próteses dentais. A área de reabilitação oral estética entrava na minha vida de vez. Comecei a trabalhar com facetas e coroas dentais de porcelana de alta qualidade e com implantes também. Nada de lentes de contato ainda. Naquela época, fui o primeiro dentista a trabalhar com implantes na cidade. Meu trabalho crescia, era reconhecido como um excelente profissional, um dos melhores da região. Comecei a ver na iniciativa privada, a recompensa financeira que eu não tinha no serviço público.Trabalhava muitas horas por semana e tinha realmente uma grande clientela. Com meu consultório melhorei muito de vida. Atingi pela primeira vez um patamar financeiro que nunca havia experimentado antes. Consegui comprar carro, casa, me casar e ainda juntar algum dinheiro.

Foram 5 anos e meio morando, trabalhando e construindo família em Russas. Parece que seria para sempre. Mas em 2005, me deu na cabeça que era hora de alçar um vôo maior. E fui prestar prova para Mestrado na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Prestei, passei e a partir de janeiro de 2006 estava dando uma nova guinada de 180 graus na minha vida.

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