Como um dentista começa a exercer sua profissão – parte I
A Odontologia é uma profissão muito solitária. Quase todo dentista no Brasil inicia sua carreira de 3 maneiras. Como dentista de uma prefeitura no interior, às vezes numa capital, o que é mais raro. Como dentista de um convênio odontológico. Por último, montando seu próprio consultório particular. Qualquer uma das 3 opções é muito dolorosa. Trabalhar no serviço público é conviver com profissionais despreparados e desmotivados, péssima remuneração, equipamentos obsoletos, material de baixa qualidade e infra-estrutura precária. Na maior parte das vezes, vale aquela lógica do jogador Vampeta que quando jogava no Flamengo falou que a relação entre as partes era muito clara. Disse ele, “o clube faz de conta que me paga e eu faço de conta que jogo futebol”. Existem exceções, obviamente. Mas esse é o caso em que a própria excessão confirma a regra.
Existem também aspectos psicológicos muito fortes que desestimulam muito o novo profissional. Vou te dar meu exemplo. Quando iniciei como dentista em Russas no interior do Ceará, meu salário era 635,00 em julho de 2000. Um médico que trabalha na mesma equipe que eu ganhava 6.000,00. Uma diferença de quase 10 vezes. Eu precisaria trabalhar quase um ano inteiro para ganhar o que um médico ganharia em um mês. Eu sabia naquela época que Russas tinha o pior salário para dentistas do estado. Mas a realidade era muito parecida em outras cidades também. Eu ouvia isso dos meus próprios amigos que estavam espalhados por todas as regiões do Ceará. Tudo bem, isso era uma escolha que cada um de nós decidia ou não se submeter. E nos submetíamos mesmo. Para iniciar na profissão, começar a ganhar um pouco de experiência e ter um dinheirinho no final do mês.
Essa ainda é a realidade hoje. Por uma simples questão mercadológica, o médico recém-formado num posto de saúde do programa de saúde da família ganha muito mais que um dentista. Hoje na proporção média de 3:1. Já melhorou muito. E olha só, aqui não vai nenhuma crítica ao médico. Minha esposa é médica, tenho familiares médicos, muitos amigos médicos e muitos pacientes da clínica hoje são médicos. Posso falar sem medo nenhum. Eu amo os médicos de verdade. Acho que é a profissão mais nobre de todas. Isso agora é opinião pessoal minha. Foi uma classe muito perseguida no recente governo brasileiro. A perseguição foi ferrenha, desmedida, culminando ao ponto de médicos cubanos para serem trazidos ao país em um regime de semi-escravidão. O governo brasileiro pagava 10.000 reais para o governo cubano e o pobre médico cubano ficava com 2.900 reais. Assim o governo mandava dinheiro para a ditadura de Cuba e ainda colocava os médicos brasileiros numa condição de concorrência quase desleal. Além disso, nossos médicos foram taxados de preguiçosos, elitistas, playboys e preconceituosos. Tem gente muito próxima a mim que inclusive pensa isso até hoje. Eu tenho pavor desses esteriótipos. O médico é um verdadeiro missionário, ele cumpre mesmo uma missão humanitária. Sujeitando a si próprio uma péssima qualidade de vida para poder ajudar um outro ser humano. Minha filha quer ser médica e desde hoje já converso com ela sobre o estilo de vida que leva a grande maioria dos médicos. Uma vida de sacrifícios, noites mal-dormidas, carga horária que beira a insanidade de 60 a 80 horas semanais, correndo de um hospital para outro, enfrentando trânsito, violência, pacientes exigentes, péssima remuneração. Uma verdadeira aventura desvairada todo santo dia.
Mas voltando ao ponto inicial, imagina um dentista que estudou por 5 anos, iniciar a profissão de forma tão desvalorizada. Esse é aquele momento em que, muitas vezes, cai uma ficha do tamanho de um orelhão na nossa cabeça. Por que escolhi uma profissão que é tão desvalorizada pelo poder público? Talvez a lógica por trás disso seja que o dentista não salva vidas e, por isso, pode ser tratado como um profissional de segunda categoria. A faculdade te dá a formação inicial básica. Nenhum dentista sai da faculdade apto a trabalhar com implantes, reabilitação oral com lentes de contato, facetas e coras de porcelana. O dentista está treinado para atuar com a clínica geral básica e a partir daí iniciar uma verdadeira saga em sua formação que muitas vezes vai durar sua vida inteira.
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